Por: Roberto Carvalho - 10/05/2010
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Paulistana, na região Sudeste, e Itaueira, na região Centro-Sul do Piauí, vivem um inédito momento de euforia com o início das obras da ferrovia Transnordestina. São milhares de empregos para profissionais - qualificados ou não - hotéis e restaurantes lotados, e um mercado imobiliário que não pára de crescer e que, mesmo em expansão, não consegue atender a demanda. Dois outros municípios - Simplício Mendes e Elizeu Martins -, por onde a ferrovia irá passar, também já se preparam para a nova realidade.
A Transnordestina, a maior obra do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) no Piauí, vai consumir, na implantação de seus 422 quilômetros de extensão no Estado, cerca de R$ 1,6 bilhão, garantindo no pique das obras, provavelmente em junho, mais de 4,5 mil empregos diretos - a maior oferta de empregos em obra pública já feita no Piauí de uma só vez em todos os tempos - mudando completamente a vida das pessoas em pleno sertão. “Aqui em Paulistana, hoje só não trabalha quem não quer”, garante o empresário do ramo de hotelaria Francisco Simão Ramos.
Em Paulistana, o otimismo e o sorriso no rosto das pessoas revelam o novo estado de espírito dos moradores da região, apesar do inverno fraco, de poucas chuvas. ”Essa obra chegou na hora certa”, diz Edilson Sousa, 54 anos, dono de um salário que geralmente passa de R$ 1 mil por mês. “No Piauí não existe outro lugar onde eu possa ganhar tanto dinheiro trabalhando num canteiro de obras”, completa.
Jeane César cadastra candidatos
Com tantos empregos e sem profissionais qualificados, a construtora Odebrecht, responsável pela construção dos maiores trechos da ferrovia no Piauí, resolveu oferecer cursos de qualificação gratuitamente para a população. Em parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) foram abertas vagas para operador de trator de lâmina/esteira, carpinteiro, pedreiro, operador de escavadeira, armador e operador de motoniveladora. Nos dois primeiros dias, 200 pessoas se inscreveram e a previsão era de que até cinco dias depois, quando se encerrariam as inscrições, pelo menos 600 trabalhadores estivessem alistados.
Os cursos profissionalizantes são de curta duração e no máximo em quatro semanas a pessoa estará habilitada para a profissão escolhida. Segundo Jeane César, funcionária da Prefeitura Municipal, cedida para trabalhar no cadastramento dos candidatos, as pessoas que participam de programas sociais do Governo Federal, como o Bolsa Família, têm prioridade na hora da seleção. Ela explica que, desta forma, elas vão ganhar mais, permitindo que possam viver de seus próprios salários.
Abílio Sousa
Mecânico e já empregado na construtora com salário de R$ 1 mil, o paulistanense Abílio José de Sousa procurou o campus da Universidade Estadual do Piauí (Uespi) na cidade, onde estão sendo feitas as inscrições, para se matricular no curso de operador de escavadeira. “Na escavadeira vou ganhar muito mais do que ganho agora. Nós temos que pensar em melhorar de vida e hoje estamos tendo essa grande oportunidade”, comemora.
Na mesma fila, o agricultor José de Carvalho Rodrigues, 27 anos, aguardava sua vez para se inscrever no curso de armador. “Na roça, ganhamos muito pouco e quando o inverno é ruim, como agora, não se ganha nada”, diz ele, justificando sua presença no local. “Quero aprender a arte e com certeza vou ganhar mais de um salário mínimo”.
A doméstica desempregada Maria Paixão Coelho, 29 anos, também espera mudar de vida com o curso para armador. “Tenho dois filhos e estou sem trabalho há bastante tempo. O curso é muito importante para mim. Caiu do céu”. A opinião é compartilhada por Deoclen Almeida do Nascimento, 20 anos, que quer ser carpinteiro. Com o ensino médio completo, reconhece que hoje não é mais preciso viajar para São Paulo em busca de emprego. “Trabalho com ferro, mas quero aprender carpintaria e conseguir esse emprego”.
Serviços
Em pleno Semiárido, com baixíssimo índice pluviométrico, Paulistana tem pouco mais de 20 mil habitantes, quase 60% deles morando na zona urbana, a maioria sem qualquer perspectiva de emprego. Com a chegada da Transnordestina, o quadro mudou. Agora sobram empregos e a iniciativa privada cuida de ampliar as ofertas de serviços.
Francisco Ramos
Francisco Simão Ramos, dono do principal hotel da cidade, o Atlanta, confirma: o efeito na economia do município já é visível e cita como exemplo o setor imobiliário, onde casas anteriormente alugadas por R$ 150, agora custam R$ 350. E não existe nenhuma delas desocupada.
Ele confessa que a chegada da Odebrecht para construir a ferrovia também mudou sua vida. Seu segundo hotel, o Paulistano, foi alugado pela construtora para abrigar parte de seus engenheiros. No outro hotel, o Atlanta, com 23 apartamentos e que mantém há seis anos, a média de ocupação nos últimos tempos nunca é inferior a 95%. “Hoje, não tenho nenhum apartamento vago. A procura é grande e a nossa rede hoteleira não tem condições de suportar a demanda”, diz. Além dos hotéis e das casas, há uma grande procura por restaurantes. “Os restaurantes foram os mais beneficiados e os proprietários estão ganhando dinheiro”, confessa.
O empresário tem razão. Numa única manhã, um dos restaurantes contratados pela construtora para atender a seus funcionários chegou a servir 182 pessoas no café da manhã à base de pão e ovo. Para o almoço, a previsão era de 250 refeições e para o jantar, pelo menos 180. A oscilação nos números acontece porque a Odebrecht contratou quatro restaurantes da cidade para atender seus operários e eles podem escolher qualquer um deles para se alimentar.
Hildo Rodrigues
Os restaurantes que ficaram de fora do atendimento aos peões também estão ganhando dinheiro. Hildo Valdemar Rodrigues, 32 anos, dono da churrascaria Boiadeiro, conta que foi procurado para integrar a rede de fornecimento de refeições, mas não aceitou. Explica que com todo mundo servindo os operários, os moradores da cidade iriam ficar sem um restaurante para frequentar. “Preferi atender a clientela tradicional e acho que estava certo, porque a procura aumentou”. Deu tão certo, que com o lucro ele já começou a construção de um balneário no açude Ingazeira, a 1,5 quilômetros da cidade. “Agora, as oportunidades são para todos”, garante.
Em Itaueira, a situação não é diferente. Primeiro a receber as obras da Transnordestina, o município vive hoje uma nova realidade. São casas alugadas, hotéis e pousadas lotados e mais de 160 empregos diretos somente no canteiro de obras. Segundo os engenheiros da construtora Reconcret, responsável pelo trecho, as obras estão avançando bem, embora nesta época do ano as chuvas forcem uma diminuição no ritmo. Mesmo assim, eles esperam concluir esta etapa em outubro deste ano, de acordo com o cronograma estabelecido anteriormente.
Expectativa
Localizado no vale do rio Canindé, também no Semiárido piauiense, o município de Simplício Mendes, com cerca de 12 mil habitantes, já começa a sentir a força da Transnordestina. Somente os preparativos para instalação do canteiro de obras da Odebrecht, a 12 quilômetros da cidade, deram um novo rumo à economia da região. As obras na região vão começar nos próximos dias.
José Moura Fé
O principal hotel de Simplício Mendes, o Fidalgo, com seus 14 apartamentos, de repente se viu pequeno para tanto movimento. Só a equipe que chegou para cuidar de montar a estrutura de escritórios ocupa seis quartos, isto porque o proprietário não quis alugar todo o prédio.
O presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Simplício Mendes, Luiz de Sousa Coelho, também aposta na Transnordestina como geradora de emprego e renda. Ele conta que diariamente tem sido procurado por agricultores que querem trocar a roça por uma vaga no canteiro de obras da Odebrecht. “O desemprego em nossa região é muito grande. Temos dezenas de jovens formados à procura de uma oportunidade, que agora está chegando. O impacto positivo na economia vai ser grande”. Otimista, José de Araújo Moura Fé, o dono do hotel, revela que a expectativa em torno da ferrovia é tão grande que já contratou arquiteto e engenheiro para triplicar o número de apartamentos e aumentar a área do restaurante. “Ainda não comecei a construção porque não recebi o projeto, mas estou ansioso”.
Alcides Santos
Para o presidente da Câmara dos Dirigentes Lojistas (CDL), Alcides Santos, mesmo sem dispor de pessoas qualificadas para determinadas profissões, a expectativa em torno do início das obras é muito grande. “As pessoas vão ter emprego e vão consumir mais. Assim todo mundo sai ganhando”.
O empresário Tamires Duarte, vice-prefeito de Elizeu Martins, no Sudoeste do Piauí, é outro que não tem dúvida quanto à importância da ferrovia e o seu impacto na economia da região. Segundo ele, serão gerados de imediato de 600 a 800 empregos diretos. “Isso vai gerar mais impostos, resultando em melhorias em educação e saúde”.
Tamires Duarte
Tamires adianta que outra grande vantagem para Elizeu Martins será a instalação de um porto seco, transformando o município no segundo maior corredor de exportações do Brasil: “Com a Transnordestina, vamos exportar produtos dos estados de Goiás, Mato Grosso, Tocantins, Bahia, Piauí e Maranhão. Vamos deixar de ser fim de linha”, concluiu.