Por: Roberto Carvalho - 03/03/2011
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Em uma terra em que refrões como "toma pirraia" e "chupa que é de uva" fazem sucesso, falar sobre sexo e drogas, quem diria, ainda é um tabu. No caso em tela, diz respeito ao maior espetáculo da Terra – O Carnaval. A festa popular mais importante do Brasil.
Durante os quatro dias de folia, a alegria é geral e a ordem é se divertir. Blocos, desfiles de escolas de samba, bailes, tudo é motivo para sair da rotina e cair no samba. Mas muitas vezes os exageros acabam com a festa: não são raros os casos de pessoas que são obrigadas a terminar o carnaval mais cedo, principalmente por motivos evitáveis.
É durante essa festa que as pessoas alcançam o pico de distúrbio, desordem, excesso, orgia e desperdício. É durante essa festa que o número de acidentes de trânsito aumenta, os serviços de pronto-socorro ficam abarrotados de pessoas que sofrem vários tipos de lesões, desde pequenos cortes acidentais até aquelas que resultam de brigas entre foliões. E, frequentemente, encontramos como denominador comum nesses casos o abuso do álcool. Além do álcool, cresce nessa época também o consumo de outros tipos de drogas, em especial os inalantes, como o famoso lança-perfume.
Ah e a música tocada. Músicas engraçadinhas cheias de duplo sentido ou de sentido (bem) direto. Você está bebendo seu chope e aparece uma figura feminina com roupas curtas: o que seria uma camiseta é uma faixa cobrindo os seios; o que seria uma calça é uma tirinha de pano que cobre a genitália. Ela rebola, sacode o busto, dança, contorce-se, faz gestos sensuais: segue o que diz a letra cantado em alto e bom som durante o último carnaval: “Eu sou o lobo mau, hau, hau (...) E o que você vai fazer, HAAAAAAA, vou te comer, vou te comer, vou te comer,vou te comer, vou te comer, vou te comer”. É a festa pela qual todos esperam, como uma senha para dizer: agora está tudo liberado. Que pena!
O ambiente transborda lascívia indubitavelmente. Mas atine: à sua frente pode está sua filha de onze, doze, treze anos de idade... Você se pergunta: sou pedófilo? Cuidado. Carnaval é festa, mas não vamos perder o bom senso.
Realmente nem tudo são flores não é verdade? Tudo, mas tudo mesmo tem seu lado ruim e também aquela coisa de que tudo que é demais, em exagero de quantidade, acaba estragando e não fazendo bem de alguma forma. E é algo que me deixa encucado sobre esse assunto. Onde estão nossos valores. Não julgo ninguém, mas sou adepto da fiel verdade: Tudo que é DEMAIS faz mal. E é fato que muitas vezes a bebida meio que tira o pudor das pessoas e as torna mais propensas a tomar atitudes que condenariam se estivessem sóbrias.
Não sou contra o carnaval, mas este costume de ficar na orgia durante quatro dias, fazer de tudo o que pode e depois voltar à vida como se nada estivesse acontecido, não é um pouco contraditório?
E o mais contraditório ainda que quando passa à festa com toda a prostituição, drogas, bebidas e orgias, muitos param para comprar 1 kg de peixe e diz que tá na Quaresma. Não comendo carne vai lavar a alma do lobo que agora vestiu capa de cordeiro? Vão comer peixe uma ova! Como se precisasse.
Enfim, sei também que tem muita gente que brinca o carnaval com consciência. E depois guardam os mandamentos da igreja.
Contudo o carnaval pode ser comemorado com muita alegria e disposição, sem o abuso de substâncias que alterem a consciência, para que a quarta-feira não seja de cinzas, mas de lembranças de momentos realmente divertidos.
Mexa com o seu imaginário, é a chance de brincar com uma roupa diferente ou se vestir do personagem favorito e transmita alegria. Vá reciclar seu coração, com responsabilidade. E bom ter cuidado com as consequências. Existem várias, algumas delas podem ser fatais. E não digo a curto prazo, a longo prazo também. É bom ter pé no chão.
Que tal você sugerir a seus amigos esbanjarem cordialidade, educação, tolerância e respeito no carnaval também? O carnaval é um período onde se intensifica a convivência. Que tal disseminar a cultura da educação, da gentileza, da paz e da harmonia entre todos– negros – pobres – mulheres – deficientes ou portadores de necessidades especiais- crianças – idosos -religiosos – ateus – e por aí vai. Não faça de seu coração um terreno baldio. Não tenha medo do seu lixo.Recicle-o! Vá além da superficialidade. Seja diferente! O riso é um calmante sem efeitos secundários.
Costumo dizer que "Gosto da humanidade. O que não aguento são atitudes de certas pessoas!". Porque nos lábios de tais pessoas só se ouvem frases como: "Não vai dar certo." "Já tentamos isso antes." "Não vai funcionar." "É pura perda de tempo." "É tempo perdido." Porém, a realidade funcional de uma relação significativa entre pessoas, está a meio caminho entre o sonho ideal e o pessimismo paralisante. Por isso sou otimista e acredito que iremos ainda ter Carnavais mais saudáveis e familiares como outrora. E quem quiser dar um passo significativo em direção ao resgate da imagem e semelhança de Deus em sua vida... tal pessoa deve entender, e viver intensamente sem rebeldia e com responsabilidade.
Para finalizar, reafirmo aqui que durante esse carnaval mais uma vez eu quero mais realismo e não excesso de simpatias, superficialidades, sociais forçadas, modinhas enjoativas, gostos padronizados ou atitudes dissimuladas. Quero o autêntico da vida. Quero viver a essência das coisas. Portanto surpreenda, impressione! Mas faça isso com sua essência, seja crítico, fuja do discurso comum. Duvide das verdades absolutas. Questione. Mude.
E no balancê de cada roda, vamos encontrar a alegria e empolgação que unida ao desejo de ser feliz, realiza a satisfação do carnavalesco na avenida. Como diz a letra da velha canção, “mais de mil palhaços no salão, palhaços do riso, do choro, da alegria exagerada e muitas vezes vítimas de suas próprias palhaçadas”.
Bom Carnaval.
Wallysson Bernardes
Historiador / Jornalista e Diretor Geral do Jornalista 292