Por: Roberto Carvalho - 17/03/2011
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As aulas já começaram há alguns dias e, neste período, os alunos já estão adaptados e as atividades escolares, em pleno curso. Mas será que todos os matriculados estão realmente frequentando as classes, algum aluno está faltando regularmente ou nem sequer apareceu? O problema do abandono dos estudos e da evasão preocupa os educadores e responsáveis pelas políticas públicas.
A taxa de abandono da escola no ensino médio no Piauí é de 20,2%, conforme os números atualizados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). O percentual é o terceiro maior do país. A taxa de evasão fica atrás apenas para os estados do Rio Grande do Norte (20,9%) e Pará (20,7%).
De acordo com os dados do Inep, a taxa de abandono da escola no país é de 11,5%, enquanto na região Nordeste o percentual é de 16,4%. O que chama atenção nas taxas de abandono do Piauí é que os maiores percentuais de evasão ocorrem na 1ª série do ensino médio (26,7%).
Já o percentual na 2ª série é de 18,3% e na 3ª série 13%. Por outro lado, o Inep também constatou que no ensino fundamental piauiense a taxa de abandono é de apenas 4,6%, ficando abaixo da média nordestina que é de 6,2%. No Brasil, a taxa de evasão escolar no ensino fundamental ficou em 3,7%. Os maiores índices de abandono nesta etapa do ensino são registrados nas 5ª e 6ª séries (7%).
Não são poucos ou desconhecidos os motivos que levam o aluno a deixar de estudar: a necessidade de entrar no mercado de trabalho, a falta de interesse pela escola, dificuldades de aprendizado que podem acontecer no percurso escolar, doenças crônicas, deficiências no transporte escolar, falta de incentivo dos pais e mudanças de endereço.

Eudina Rocha diz que estudante é desmotivado (Foto: Regis Falção)
No dia a dia o jovem olha para o papel, para a lousa, para o professor e não se sente conectado ao universo escolar. O resultado? Desinteresse. Esse foi o maior motivo de abandono dos bancos escolares segundo a pesquisa "Motivos da evasão escolar", realizada pela Fundação Getulio Vargas (FGV): 40% dos jovens de 15 a 17 anos que evadem deixam de estudar simplesmente porque acreditam que a escola é desinteressante.
Para Eudina Maria da Rocha, diretora da Unidade de Gestão e Inspeção da SEDUC, o desinteresse do jovem pela escola reflete a falta de demanda por Educação. "Entendemos que não basta garantir o acesso ou criar programas de transferência de renda para assegurar que esse jovem permaneça na escola, é preciso torná-la mais atrativa, interessante e cativante. Nos últimos anos temos avançado neste sentido através de programas federais nas escolas do Estado", explica.
"Temos consciência de que o abandono no ensino médio acontece, principalmente, porque o estudante não encontra significado no estudo", afirma. De acordo com ela, um dos principais motivos para esse cenário é o fato de as pessoas serem muito utilitaristas: "Elas não veem a educação como meio, mas como fim do processo de formação. O que é um grande equívoco", diz. Isso, na sua visão, não redime as instituições de ensino de culpa: "A escola também precisa se aproximar dos sujeitos reais e atualizar seu conhecimento. É preciso garantir a essência da escola", frisou Eudina Maria.
Evasão gera impactos no orçamentoMais do que prejuízos na formação a evasão escolar gera impactos no orçamento na rede estadual de ensino, já que a distribuição dos investimentos do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb) é feita de acordo com o número de alunos que efetivamente estão matriculados e frequentam a escola.
No entanto, a gerente de inspeção escolar da SEDUC, Soraia Tabatinga, afirma que a evasão não tem impedido o envio de recursos para as escolas. Segundo ela, o controle das ausências dos alunos gera benefícios muito além dos recursos financeiros às redes de Ensino.
"Isso porque, quando cada diretor age em sua escola e, depois, compartilha dados de evasão e abandono com os demais diretores, é possível tomar providências em conjunto, principalmente com a participação da família", completou. De acordo com Soraia Tabatinga, "é preciso cuidar para que as medidas não sejam personalizadas e que os gestores contem com a orientação da Secretaria de Educação para atuar em rede".
Além disso, como aponta a diretora da Unidade Escolar Engenheiro Sampaio, localizada no centro de Teresina, Francisca Pimentel, o acompanhamento da frequência é necessário para que a escola possa atender com qualidade, planejar e organizar a formação e a atribuição das classes e organize as salas. "Assim o gestor obtém os elementos para analisar adequadamente o movimento na instituição e o andamento do processo de ensino e aprendizagem dos alunos", pontuou.
Distorção idade-série é preocupanteNo Brasil, de acordo com o Ministério da Educação (MEC), a evasão atinge 6,9% no Ensino Fundamental e 10% no Ensino Médio (3,2 milhões de crianças e jovens, segundo dados de 2005). São mais 2,9 milhões que abandonam as aulas em um ano e retornam no seguinte, engrossando outro índice preocupante: o da distorção idade e série.
De cada 100 alunos que se matriculam no nível médio acima da idade recomendada (14 ou 15 anos), 16 abandonam a escola antes de completar os estudos. Já entre os sem defasagem idade-série, apenas nove desistem. Os números revelam ainda revela que os atrasados tendem a abandonar a escola no meio do ano letivo, deixando a sala de aula sem concluir a série que estão cursando. Isso faz com que o tempo necessário para que eles terminem os estudos seja ainda mais longo.
É o caso do estudante Gabriel Lima Silva, 18 anos. Após ser reprovado no 7º ano do ensino fundamental, ele conta que sua trajetória nunca mais foi a mesma. "Fiquei desmotivado para repetir o ano. É ruim demais ver tudo aquilo de novo. Aí comecei a trabalhar. Tudo ficou mais complicado", disse, admitindo que tomou uma decisão errada ao abandonar as salas de aula. Hoje, matriculado no 1º ano do ensino médio, ele tenta recuperar o tempo perdido. "Sei que essa parada na escola me prejudicou muito, mas voltei e vou fazer de tudo para terminar. Quero fazer vestibular e para isso eu tenho que estudar", comentou.
Pais e mestres têm culpa pela evasão escolarPara a coordenadora pedagógica da Unidade Escolar Engenheiro Sampaio, Mariah César da Silva, a evasão escolar pode ser justificada por um antigo modelo educacional falho. O primeiro problema são pais que não fazem o acompanhamento da vida escolar dos filhos, em seguida o início da atividade profissional precoce e, finalmente, a instituição de ensino que não atende às particularidades do aluno.
"Sem o estímulo da família, os alunos que têm dificuldade na escola sentem-se desmotivados e preferem abrir mão dos estudos. Aqueles que são empregados ainda durante o período escolar, após uma longa jornada de trabalho, não têm o mesmo ânimo para ir para o colégio e desistem na primeira deficiência", explicou.
Na escola em que atua ela desenvolve alguns projetos para combater a evasão. Os alunos são inseridos em programas como o Gestão Nota 10 e o Mais Educação, ambos oferecem atividades artísticas, culturais e esportivas em horários opostos das aulas. "É uma forma de atrair o aluno para uma atividade e tornar a escola mais atraente para os alunos", disse.
Mariah César acredita que as políticas públicas só terão sucesso se houver a concordância e a participação dos pais e os alunos. "É preciso entender as necessidades dos clientes dessas políticas", explica. A coordenadora pedagógica ressalta que é importante informar e conscientizar esses jovens sobre os benefícios trazidos pela Educação e atraí-los à escola.

Mariah César diz que estudantes precisam ser acompanhados mais de perto pela família e pela escola (Foto: Jailson Soares)
EJA tem maiores índices de abandono da escolaTodos os semestres, milhares de piauienses se inscrevem em cursos de Educação de Jovens e Adultos (EJA) na esperança de recuperar o tempo perdido. São pais e mães de família, trabalhadores informais ou desempregados que, em comum, têm o passado marcado pela pobreza e o abandono das cadeiras de escola antes da hora.
No decorrer das semanas, as salas de aula cheias dessas pessoas seguem esvaziando até que, na hora de pegar o certificado de conclusão do curso, o número de formandos é bem menor do que o inicial. Na semana passada a rede estadual de ensino deu início ao período letivo. Porém, professores, gestores do ensino e, principalmente, os alunos já sabem o que vai acontecer com parte dos 350 mil estudantes matriculados. Deixarão de comparecer às salas de aulas.
Para ajudar as escolas no enfrentamento à evasão escolar, a coordenadora do EJA no Piauí, Oscarina Silva, aponta três caminhos essenciais. O primeiro deles diz respeito ao conjunto da rede: é preciso identificar as escolas onde se concentram os estudantes com dificuldades.
No combate às desigualdades, gestores municipais e estaduais precisam oferecer condições para que as instituições com os piores índices de desempenho recebam os melhores professores e mais recursos. O segundo é uma análise interna de cada escola. "Temos nos empenhado em elaborar um diagnóstico das escolas estaduais para apontar as ações que melhor se adequarem as diferentes realidades", completou.
O terceiro ponto, segundo ela, é desenvolver ações de educação tecnológica. "Oferecer atividades voltadas para a educação profissionalizante é uma experiência que tem dado certo em outros estados e vamos focar isso também no Piauí", ressaltou Oscarina Silva.
Ações de combate à evasão devem ser aplicadas o ano inteiroPara ser minimizada, a evasão escolar depende, entre outros fatores, de ações do poder público. Contudo, pode ser solucionada com iniciativas tomadas ao longo do ano pelos gestores escolares e suas equipes, que têm a responsabilidade de assegurar as condições de ensino e aprendizagem que se perde quando a criança não vai à aula.
Os procedimentos para o acompanhamento da frequência precisam estar contemplados no projeto político pedagógico da escola e na pauta de discussão com o corpo docente nas reuniões de planejamento. De acordo com o especialista em política educacional, Fernando Oliveira Ferreira, a primeira medida eficiente para que esse controle seja feito diariamente é a tradicional chamada, que os professores devem ser incentivados pelos gestores a fazer em todas as aulas.
"Chamar os alunos pelo nome também é uma das formas de construir vínculos e dar identidade ao grupo", afirma. Na prática, é preciso ter, desde o primeiro dia, planilhas completas com os nomes de todos os estudantes, preparadas com a ajuda da secretaria da escola e essas precisam ser analisadas regularmente pela equipe gestora. "Com isso os professores obtém uma boa ferramenta para observar a rotatividade na escola", frisou.
"É preciso continuar buscando medidas para acompanhar a presença dos estudantes, trabalhando sempre para conservar ou aumentar o número de crianças e jovens com acesso à Educação", pontua o especialista. Nesse percurso, o diretor pode se deparar com problemas de origem pedagógica. Existem casos de crianças que deixam de ir à escola porque apresentam um desempenho ruim e há também aquelas que, no extremo oposto, evadem ou abandonam os estudos por não se sentirem desafiadas e estimuladas.
"Por isso, a escola precisa ter um projeto pedagógico de acordo com a realidade dos alunos, assim como, oferecer aos educadores projetos de formação que os auxiliem a ensinar para todos", completou Fernando Oliveira, destacando que a escola e os seus agentes não podem deixar de buscar integração com a comunidade e a família.
Piauí registra queda no número de matrículasEm 2010 o número de alunos matriculados na educação básica do Piauí diminuiu em quase 6% na comparação com os dados de 2009. O Censo Escolar elaborado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) registrou pouco mais de 555,7 mil de matrículas nas escolas públicas e particulares em 2010. Em 2009, foram quase 810 mil.
O índice de queda das matriculas no Piauí foi maior em quase três vezes que a nacional, que ficou em 1,9%. No Brasil em 2010 foram matriculados cerca de 51,5 milhões de alunos, na educação básica. Em quase todos os seguimentos da educação básica, no Piauí, houve redução de vagas em 2010, como aponta o Censo. Em relação às vagas na educação infantil houve um aumento de mais de 1,2 mil entre os dois anos analisados. Conforme os dados foram matriculados em 2010 um total de 26.436 crianças em creches no Estado. Porém, no ensino médio, a queda no número de matriculas na rede educacional piauiense foi superior a 13 mil alunos, ficando em pouco mais de 142 mil matriculas.