Por: Roberto - 22/11/2021
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“Invisibilidade e registro civil: garantia de acesso à cidadania no Brasil” foi o tema da redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) realizado neste domingo, 21, por cerca de 2,3 mil milhões de estudantes. O tema foi considerado difícil pelos candidatos, por não ser um assunto visto frequentemente na mídia ou no cotidiano. Já professores avaliaram que a proposta era pertinente, ao tratar de problema social importante para o País.
© WILTON JUNIOR / ESTADAO Candidatos chegam para o primeiro dia de prova do Enem no câmpus da UERJ, no Rio
Entre os textos de apoio que os alunos poderiam utilizar para o desenvolvimento do assunto, estava um trecho do livro Invisíveis: uma etnografia sobre brasileiros sem documento (Editora FGV, 2021), da jornalista e professora de Comunicação da Universidade Federal do Rio (UFRJ) Fernanda da Escóssia. A obra conta a história de brasileiros que não têm nenhum registro legal que comprove sua existência, e que lutam para reverter essa situação de completa exclusão e invisibilidade.
Não há dados atualizados sobre a parcela da população fora dos registros civis, mas a antiga Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), contabilizava em 2015 cerca de 3 milhões de brasileiros sem documentos. Os obstáculos criados por essa lacuna ficam evidentes, por exemplo, na demanda por acesso ao auxílio emergencial na pandemia. A concessão da ajuda financeira pelo governo federal aos mais vulneráveis entre 2020 e este ano exigia a comprovação do registro civil.
Na entrevista abaixo, a autora comenta sobre o processo de criação e construção do livro, o perfil dos brasileiros invisíveis e quais os desafios para superar esse desafio.
Meu interesse sobre o tema surgiu como repórter, e escrevi muitas reportagens sobre isso. No doutorado e no livro, decidi abordar o tema numa investigação etnográfica, reconstituindo as trajetórias das pessoas indocumentadas, analisando o papel que atribuem ao documento e como a ausência de documentação se relaciona a temas como identidade e cidadania.
Durante quase três anos, acompanhei o cotidiano de um serviço público e gratuito que funciona no centro do Rio de Janeiro, num ônibus especializado em emitir certidões de nascimento. O ônibus atende toda sexta-feira. Conheci inúmeras pessoas que nunca tiveram nenhum documento, e conto as histórias delas no livro.
Quem não tem certidão de nascimento (ou seja, não foi registrado) não pode ter nenhum outro documento. Essa exclusão documental reflete a desigualdade brasileira. As pessoas indocumentadas que conheci no ônibus eram, em geral, pobres ou muito pobres. Há muitas causas estruturais, como as incongruências da legislação e a dificuldade de comunicação entre os cartórios. Destaco ainda o fato de ser um problema que passa de uma geração a outra - se os pais não têm documentos, não podem registrar os filhos. Por fim, é preciso lembrar o racismo e o machismo estruturais. Conto no livro a história de uma jovem que não tinha documentos porque o pai só registrava os filhos homens. Ele dizia que mulher não precisa de registro.
É muito mais do que a privação de serviços: é uma privação de direitos. O documento é um direito. Quem não tem certidão de nascimento não tem nenhum outro documento - RG, CPF, título de eleitor, carteira de trabalho…Não vota, não tem acesso a nenhum benefício social nem tem emprego formal. Não consegue ter acesso pleno aos sistemas de saúde e educação.
Desde 2007 foi criado um programa nacional de redução do sub-registro. Muitos municípios têm comitês que atuam sobre o problema e podem encaminhar o indocumentado a um serviço capaz de emitir os documentos necessários. As Defensorias Públicas, os centros de atendimento social, o Ministério Público e a Justiça, além dos cartórios, são fundamentais nesse processo. A equipe do ônibus, por exemplo, realiza buscas em cartórios para saber se a pessoa não foi registrada anteriormente, convoca audiências com a presença de juízes, e nessas audiências são ouvidas testemunhas capazes de informar se a pessoa de fato é quem diz ser.
Desde 2007, o Brasil reduziu de modo notável o sub-registro de crianças, e o Bolsa Família foi fundamental, porque cobrava a documentação de todos os beneficiários. Também destaco o projeto que criou as chamadas unidades interligadas, cartórios dentro dos hospitais, para que a criança já saia registrada. Tudo isso tem de continuar, mas é preciso envolver de modo mais ativo as escolas e unidades de saúde. No caso dos adultos, é fundamental melhorar a troca de informações entre os cartórios.
MSN