Por: Roberto Carvalho - 16/11/2011
147
Na casa de Antônio Mariano da Silva Filho, de 96 anos, e de Minervina Eva de Sousa, de 76 anos, no município de São Luis do Piauí (252 km de Teresina) moram cinco pessoas e todas são analfabetas, uma situação em que vive 33,5% dos 2.596 da cidade, no semiárido nordestino.
Todas as analfabetas, as filhas Rosa Minervina de Sousa, de 34 anos, e Josefa Minervina de Sousa, de 36 anos, e o neto Josimar Luis de Sousa, de 19 anos.
Todos têm uma história de obstáculo para que fossem alfabetizados que atravessam séculos e gerações.
Antônio Mariano de Silva Filho disse que não estudou por ter sido criado pelo avô porque nasceu 15 dias depois da morte de seu pai, que foi assassinado a tiros no interior do Piauí por disputa por carnaubais
“Com 15 dias que mataram meu pai eu nasci e meu avô não colocou nem eu, nem os meus 19 irmãos, porque somos 20 filhos, 10 homens e 10 mulheres. Eu comecei a trabalhar na roça com dez anos e naquela época só escolas nas cidades. Andei por todos os Estados, sempre trabalhando na roça e tenho essa angústia por não saber lei e escrever. Se eu soubesse ler eu tinha fica com um emprego e estava muito bem”, declarou Antônio Mariano.
“Quem é que não fica com vergonha de não saber lei e escrever? Eu fiquei com vergonha muitas vezes porque nunca tive quem me botasse na escola”, falou Minervina Eva de Sousa, lembrando que ficou com muita vergonha quando foi para São Paulo assinar documento para ficar com a pensão de um filho que morreu e trabalhava na Volkswagen e na hora de assinar começou a chorar por não conseguir fazer a assinatura e um funcionário da empresa afirmou que ela colocasse o polegar porque estava chorando muito e não conseguia enxergar para assinar o documento.
Ela conta que o pai não deixou que as quatro filhas estudassem para que não tivessem ideia contra o casamento e iriam escrever para os rapazes. .
“Meu pai dizia que não ia botar a gente para bestar. Dizia que não ia colocar a gente na escola porque éramos moas e íamos fazer besteira. 'Vou botar vocês na enxada para trabalhar', falava meu pai. Eu comecei a trabalhar na roça com dez anos, o velho era carrasco Naquela época não tinha escola de graça, os pais tinham que pagar aos professores”, falou Minervina Eva de Sousa, que teve 20 irmãos. Dos 21 filhos de seu pai, apenas dois apreenderam a ler e escrever..
As filhas do casal seguiram o mesmo destino e continuam sem instrução formal. “Ficamos muito tempo no interior e quando chegamos
a ficar dois anos na escola, mas não aprendíamos nada. Passei pelo Mobral, pelo Programa de Alfabetização de Jovens e Adultos, mas nunca deu certo aprender a ler e escrever. Eu caminhei para a escola durante três anos, mas a memória não dava para a escola. Hoje vou resolver uma coisa no banco e fico com vergonha porque a pessoa que não sabe ler é cego”, diz a dona de casa e lavradora Rosa Minervima.
Filho de Josefa Minervina, Josimar Luis dos Santos diz que chegou a estudante até a segunda série do ensino fundamental e não apreendeu nada. “Não quero tirar uma fotografia por ser analfabeto”, falou Josimar Luis, admitindo que sente vergonha por causa de sua falta de instrução.
Todos os cinco integrantes da família de Antônio Mariano e Minervina Eva chegarama se matricular no Programa de Educação de Jovens e Adultos, mas alegam que as aulas duravam pouco tempo, eram interrompida e não davam óculos para quem precisa. O programa está suspenso em São Luis do Piauí há um ano e meio.
O agricultor Miguel Francisco e sus mulher Francisca dos Santos, ambos com 66 anos, não sabem ler e escrever. Miguel Francisco acorda todos os dias às 5h para trabalhar na roça. Ele conta que seu pai o colocou para trabalhar na agricultura, junto com mais 14 irmãos, quando eram muito jovem.
“A educação faz falta e eu nunca tive oportunidade de estudar. É a mesma situação de minha mulher. Eu senti falta da educação aos 18 anos quando vi meus colegas sabendo ler e escrever e eu não sabia”, declarou Miguel Francisco, que por muito anos sentiu vergonha de ser analfabeto, mas agora não sente mais em uma época em que os produtos funcionam com “touch screen”.
“Quem apreendeu a ler e escrever conseguiram empregos melhores e eu fiquei na roa, na enxada, mas não tenho mais vergonha de usar o dedão em vez de assinar o meu nome porque agora está na moda. Se vota e se usa o telefone apertando com os dedos”, declara Miguel Francisco.

