Por: - 13/06/2012
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Fugindo da seca, centenas de piauienses estão deixando o Estado em busca de alternativas de sobrevivência. É um movimento forçado. O agricultor larga a enxada e migra para trabalhar como empregado em grandes lavouras ou na construção civil. Deixa para trás a família e todas as suas raízes afetivas e culturais. As obras da Copa do Mundo de Futebol - que em 2014 será realizada no Brasil - têm atraído parte dessa mão-de-obra órfã de chuva.No êxodo moderno, o homem viaja em busca de emprego e a esposa e os filhos ficam. O sustento da família é garantido pela renda mensal de programas federais, como o Bolsa Família. Em Pio IX (PI), município distante 440 km da capital Teresina, relatos dessa natureza se multiplicam. "Aqui na região muita gente foi embora fugindo da seca", relata o agente de saúde Lúcio Jovelino Fortaleza, morador do assentamento Tabocas.Todas as quintas-feiras um ônibus clandestino parte da praça central da cidade com destino ao Sudeste do país. O estado de conservação de veículo é deplorável. Mas a passagem a baixo custo garante a lotação semanal. Os vizinhos da agricultora Maria Dorotéia estão sumindo.
A comunidade conhecida como Jerimum é produtora de mandioca, caju, milho, feijão e mel. A mestiagem prejudicou todas essas culturas, deixando o homem do campo com poucas (ou nenhuma) escolhas.

"A gente quase não tirou nada da roça nesse inverno", diz. Paulo de Sousa, irmão de Maria, nunca tinha deixado o torrão natal. Em abril deste ano migrou para Goiás, onde arrumou emprego na lavoura de cana-de-açúcar. No único contato que manteve com a irmã nesses dois meses, disse apenas que o emprego era bom. A esposa e os filhos do agricultor aguardam sua volta. Quando? "Não se sabe ainda", responde Maria.Quem fica não sabe bem como vai enfrentar os meses de estiagem. É uma roleta russa. "Deus é quem sabe como a gente enfrenta isso", fala o agricultor Francisco Cecílio. Resignado, o tambémagricultor Luís Arraes Alencar diz que "o jeito é esperar". "A gente se vira como pode, porque não sabe o que vai acontecer pela falta da chuva", admite.No município de Pio IX, 1 mil litros de água custam R$ 70. Quem ainda tem reservas financeiras abastece as cisternas com o produto comprado. Os mais pobres, entretanto, dependem do governo. "Mas essa ajuda é devagar", reclama Francisco Cecílio, que não sabe os critérios utilizados na assistência às comunidades. "Eu não sei se precisa ter cadastro, se não precisa." Testemunha da maior seca que se tem notícia, José Ribamar de Sá, 48 anos, defende a permanência do agricultor em seu torrão. "Se a estiagem é dura, a gente tem que ser mais duro ainda. O homem da roça tem que ser mais forte do que a seca...".Migração leva 40 mil pessoas a deixarem suas terras, estima CPTEstima-se que 40 mil piauienses deixam anualmente o Estado em busca de trabalho em outras regiões do país. O levantamento informal é da Comissão Pastoral da Terra (CPT). Os migrantes, em sua maioria, são homens, têm entre 18 e 35 anos, são pais de família e não concluíram o ensino médio. Vulnerável social e financeiramente, essa mão-deobra assume subempregos nas lavouras e na construção civil. Muitos voltam mais endividados do que quando viajaram. Outros se tornam "escravos" de empregadores desonestos. Em anos de seca rigorosa, como o que o Piauí vivencia, o êxodo é mais intenso.
"Se não há terra, água, trabalho, educação, o que vai segurar esses homens e mulheres? Nada. Há comunidades no Sul do Estado, por exemplo, que você não encontra mais ninguém nas casas; as pessoas foram embora", aponta Joana Lúcia, coordenadora do eixo Migração e Trabalho Escravo da CPT.O movimento migratório prova, na avaliação da CPT, a ausência do Estado - em todas as suas esferas - na vida do sertanejo. Os municípios, em sua maioria, não oferecem condições mínimas para manter as pessoas em suas origens. "A migração não é algo cultural, como muitos defendem. Ela é consequência da falta de investimento nas regiões afetadas pela seca", denuncia Joana Lúcia.
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