Por: Roberto - 23/02/2026
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Em 30 de janeiro de 2026, a SpaceX solicitou à Federal Communications Commission autorização para lançar uma megaconstelação de até um milhão de satélites, com o objetivo de fornecer energia a centros de dados em órbita.
O plano prevê que os satélites operem entre 500 e 2.000 km da Terra, com algumas órbitas projetadas para exposição quase contínua à luz solar. A proposta está aberta a comentários públicos junto à comissão.
Essa solicitação é mais uma entre muitas megaconstelações em crescimento exponencial. Cada satélite tem um ciclo de vida curto, cerca de cinco anos, e é projetado para uma função específica. Em fevereiro de 2026, havia cerca de 14.000 satélites ativos em órbita, enquanto mais de 1,2 milhão de unidades propostas estavam em diferentes fases de desenvolvimento.
Atualmente, a aprovação concentra-se quase exclusivamente em informações técnicas enviadas pelas empresas, sem considerar impactos culturais, espirituais e ambientais, que especialistas alertam serem significativos.
Mudanças no céu noturno
A expansão das megaconstelações alterará permanentemente a aparência do céu noturno. Satélites em baixa órbita refletem a luz solar antes do nascer e após o pôr do sol, aparecendo como pontos móveis no céu. Apesar dos esforços para reduzir seu brilho, projeções indicam aumento expressivo da poluição luminosa.
Estima-se que, em menos de uma década, um em cada 15 pontos de luz no céu noturno será um satélite, considerando apenas os 65.000 projetados em 2021. Com milhões de satélites, o impacto visual será praticamente irreversível. Mesmo que cada satélite tenha vida útil de cinco anos, as substituições contínuas manterão uma presença permanente no céu, criando a chamada “síndrome da linha de base móvel”, na qual gerações futuras aceitarão como normal um céu degradado.
Riscos e impactos
Além do efeito visual, os satélites geram problemas para a Astronomia, emissões de rádio, poluição luminosa e aumento do risco de colisões, conhecido como síndrome de Kessler. Atualmente, existem cerca de 50.000 detritos com 10 cm ou mais em órbita. Estudos recentes indicam que, se não houver manobras constantes de evasão, grandes colisões poderiam ocorrer a cada 3,8 dias.
Os impactos ambientais também são relevantes: lançamentos em massa consomem combustíveis fósseis, afetam a camada de ozônio e os satélites desativados liberam metais na estratosfera. Culturalmente, comunidades indígenas podem ter suas tradições e práticas espirituais afetadas, já que a visibilidade do céu noturno é central para rituais, navegação e ensinamentos orais.
Lacunas na regulamentação
Atualmente, a legislação espacial e nacional se concentra em segurança de lançamento, frequências de rádio e responsabilidade por danos. No entanto, questões culturais, científicas e ambientais ligadas à visibilidade do céu noturno são negligenciadas.
Para preencher essa lacuna, especialistas como Gregory Radisic e Natalie Gillespie propõem a criação de uma Avaliação de Impacto do Céu Escuro. Essa abordagem sistemática reuniria perspectivas de astrônomos, cientistas, pesquisadores culturais e comunidades afetadas, modelaria os efeitos cumulativos e definiria critérios claros sobre quando a visibilidade do céu é essencial.
Além disso, incluiria medidas de mitigação, como redução do brilho dos satélites, ajustes orbitais e incentivos para limitar o número de satélites em órbita. Os resultados seriam transparentes, revisáveis e diretamente vinculados às decisões de licenciamento.
Essa avaliação não impediria o desenvolvimento espacial, mas permitiria decisões mais equilibradas, minimizando impactos visuais, culturais e ambientais e garantindo que as comunidades afetadas participem do processo antes que as mudanças se tornem irreversíveis.
Segundo os especialistas, a transformação do céu noturno já começou, e é urgente que governos e instituições internacionais adotem medidas para proteger este patrimônio compartilhado da Humanidade.
Fonte: G1