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Preso por engano. A história do jornalista piauiense confundido com chefão do tráfico de drogas

Por: Roberto - 31/07/2015

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Qual a chance de seu CPF servir para registrar números de celulares usados por uma quadrilha de traficantes que negociava drogas e armava assassinatos? E qual a chance de você saber disso tudo da pior forma? Ou seja: ser acusado por tais crimes e ser apontado como chefão de uma quadrilha? Pois isso ocorreu na cidade piauiense de Picos (a 311 quilômetros de Teresina). O injustiçado-acusado foi o jornalista Joel Marques, um homem pacato, ligado aos movimentos da Igreja Católica e que se viu envolvido em uma história que levou à sua prisão e muita humilhação.

Joel Marques: de frequência à igreja foi obrigado a ir para prisão. Personagem de grande engano. Após três anos e meio os erros foram reparados. O Estado do Piauí foi condenado em tempo recorde.

Joel Marques abriu sua residência à reportagem de O Olho para falar do caso. Até hoje, mesmo sempre inocente, se emociona ao falar dos dias em que esteve preso e foi vítima de humilhações. Diz que só não cometeu suicídio na cadeia por intervenção divina.

Contou em riqueza de detalhes o que passou, inclusive como foi parar em um dos piores e mais perigosos presídios do estado. Além disso falou também como, ao ser comprovado sua inocência, foi tratado pela Polícia Civil do estado (responsável pelas investigações do caso). O erro na prisão de Joel foi tão grande que mudou a maneira de se fazer operações policiais no Piauí.

Fotojornalista Joel Marques Cardoso

O fotojornalista ainda relatou como está sua vida hoje e como tudo o que passou serviu para ter uma vida muito melhor.

Mas, mais que a história de um homem simples, do interior do Piauí, cumpridor de suas obrigações caseiras, sociais e acadêmicas, surge uma das maiores histórias de injustiças já ocorridas na região de Picos. Uma injustiça que terminou com final menos traumático em que o injustiçado pôde viver para contar detalhes. Foram eles, nunca antes publicados, que Joel Marques revelou em entrevista exclusiva que você agora acompanha em tópicos.

QUEM É JOEL MARQUES?

Joel Marques Cardoso, 51 anos, é casado há quase 25 anos com a professora Irinalda Maria. É pai de três filhos: Rodrigo José, 22 anos, Maria Clara, 18 anos, e João Gabriel, um mês.

O fotojornalista nasceu em Teresina e veio criança para Picos quando seu pai, que trabalhava na construção da BR-316 (que corta a cidade), foi transferido para abrir a estrada no Sertão do Piauí. Terminaram ficando. É o terceiro de uma família de oito irmãos.

É um homem que cresceu dentro da Igreja Católica de Picos, que ficou conhecido na cidade por seus trabalhos de fotografia social e também por ser uma das lideranças do Encontro de Casais Com Cristo (ECC) e do Terço dos Homens. Nos últimos 20 anos sempre foi comum encontrar Joel e a família nas missas da Catedral de Nossa Senhora dos Remédios.

POR QUE O JORNALISTA FOI PRESO?

Joel Marques era acusado de ser o chefão da quadrilha. A polícia não sabia quem era o bandido. Mas investigações de mais de um ano apontavam para que a pessoa que usava essa alcunha um perigoso traficante em ação na região de Picos no início de 2012. Chegou-se a Joel, porque um dos números grampeados pela polícia, com autorização da Justiça, estava em nome no CPF do fotojornalista. Quem registrou o número e porque estava no nome dele, sem ele saber: é um mistério que até hoje ninguém sabe dizer.

Ficha criminal de Joel, para a polícia: Maike

Segundo inquérito policial que desencadeou a Operação Segor, o traficante comandava a região com mãos de ferro. Era bruto e teria tramado várias mortes na região. Não dispensava os oponentes e concorrentes. Pouco se sabia sobre ele, sobre seus passos. Pelos grampos apontou-se que era acusado de comandar uma rede de mais de 50 pessoas.

A investigação parecia caminhar para uma das mais bem sucedidas ações contra o tráfico na região de Picos. Com os dados do telefone foi fácil chegar ao endereço do acusado. O acesso ao banco de dados do Detran-PI forneceu a foto do jornalista. Só que sempre pensava-se que Joel Cardoso era o tal criminoso.

Na cidade, dominada em partes pelo tráfico de drogas, era esperada uma ação enérgica da polícia. Poucos traficantes foram presos entre 2011 e 2012. Muito pouca droga foi apreendida pela polícia na época. Enquanto isso, em praticamente todas as praças e em muitos pontos públicos sabia-se que cocaína e maconha eram tão facilmente encontradas como bombom.

Prender o acusado de ser chefão era o objetivo número um para mostrar respostas à sociedade.

Joel Rodrigues era o homem caçado de maneira errada. O número registrado em nome dele é que fez a polícia a pensar que Joel era o chefão. Por isso a vida do jornalista entra por uma série de coincidências negativas e por alguns erros de investigação da Polícia Civil do Piauí.

Outro erro não apurado é que Joel Rodrigues e o verdadeiro acusado moravam na mesma rua, Carlos Marcílio (conhecida também por Maracanã) que margeia o Centro de Picos e o bairro Canto da Várzea. Mas nunca procurou-se comparar realmente se o jornalista e a pessoa que usava o telefone para negociar drogas e mandar matar desafetos, eram o mesmo homem. A casa do verdadeiro acusado fica a mais de um quilômetro da casa que Joel morava. Os pais do acusado é que residiam nas proximidades do jornalista.

Fotojornalista morava na mesma rua do acusado de ser o chefão do tráfico de drogas em Picos que levou à sua prisão

Um fato, não apurado inicialmente pela polícia, levou à prisão de Joel Marques. Ele foi tido como o mais perigoso de todos os quase 60 investigados pela Operação Segor.

O DIA DA PRISÃO

Membros das polícias Civil e Militar fizeram esquema cinematográfico para irem no final da madrugada do dia 09 de fevereiro de 2012 até a residência número 899 da rua Carlos Marcílio, bairro Canto da Várzea, região central de Picos.

Ali morava uma família muito conhecida pela sua devoção e envolvimento com movimentos católicos: o fotojornalista Joel Marques, então aluno do oitavo período do curso de Jornalismo da Faculdade R.Sá, a esposa, o filho mais velho, militar do Exército, e a filha, estudante secundarista.

Joel Marques guarda todos os documentos do caso

Joel conta que naquele dia, uma quinta-feira, acordou bem cedo, tomou banho e foi ver os primeiros noticiários da TV. Relata que algo estava estranho, pois não acostumava despertar tão cedo. “Botei até uma calça. Rapaz, parecia que era mesmo mensagem divina”, relatou.

O fotojornalista viu o filho saindo de casa. Na época, João Gabriel era militar do 3º Batalhão de Engenharia e Construção (BEC) e ia de casa para o trabalho de bicicleta. Ao sair o filho viu que a frente da residência estava lotada de policiais que perguntaram se ali era a casa de Joel Marques. Ele confirmou. Os policiais pediram o filho para chamar o pai.

“Pai é a polícia”, contou Joel, dizendo-se muito espantado. Depois disso os policiais foram adentrando a casa e fazendo revista em vários lugares. “Disseram que era para eu botar as mãos na parede.

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