Por: Roberto - 10/03/2017
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Em 2017 faz 40 anos que as Organizações das Nações Unidas (ONU) reconheceram oficialmente o 8 de março como Dia Internacional da Mulher. É de se notar que algumas reivindicações foram conquistadas, mas a luta feminina não se resume somente ao direito de votar ou a receber o mesmo salário que um homem. O lugar de falar, por exemplo, é delas. Logo são responsáveis por elencarem as principais problemáticas enfrentadas nesta geração em que o acesso à informação e comunicação é a base das relações sociais.
Embora a Internet facilite que as mulheres exponham o que sentem sobre as dificuldades marcadas no cotidiano, a imprensa ainda é uma das principais intermediadoras dessas reclamações. Tornar público, obviamente com responsabilidade à vítima, um assédio sexual ou moral é tentar reforçar 365 oitos de março ano após ano. Esta reportagem do OitoMeia, por sua vez, visa tratar de um aspecto bem mais específico a respeito desta data. O caráter profissional da mulher, com destaque à categoria das jornalistas.
A classe feminina, em pleno século XXI, ainda é tida como minoria social. Por outro lado, o código de ética do jornalista brasileiro é bem claro quando diz que a imprensa deve se preocupar em defender os direitos do cidadão, em especial, dentre outras classes, os das classes com mais direitos postos em questão, como as mulheres. A ideia desta produção surge num contexto em que uma jornalista denunciou um caso de assédio durante uma entrevista com o cantor Mc Biel, em junho de 2016. O que aconteceu com a profissional em questão é tão comum, talvez em todo o mundo, que talvez você, leitor, não tenha noção do que realmente significa a palavra assédio a uma mulher.

Samantha Cavalca, Sayuri Sato e Marta Alencar são jornalistas que confirmam práticas recorrentes de assédio durante o trabalho (Foto: Montagem OitoMeia)
JORNALISTAS ACEITAM FALAR SOBRE O CASO Para ilustrar esta reportagem, três jornalistas piauienses toparam sair de sua zona de conforto e relatar casos que passaram que superam o assédio e beiram o desrespeito. As entrevistadas são Samantha Cavalca (correspondente piauiense de Brasília pela TV Meio Norte), Sayuri Sato (repórter da TV Antena 10) e Marta Alencar (atualmente vinculada à Fundação Bradesco).
Elas são unânimes em dizer que assédios contra as mulheres são comuns em seu ambiente de trabalho, seja durante uma entrevista, cobertura de eventos ou até mesmo na correria da redação. “Não só com nós, jornalistas, mas em várias categorias. Empregada doméstica, enfermeira, advogada, médica, enfim”, afirma Samantha. Abaixo, um resumo do relato das jornalistas:
VÍDEO COM SAYURI SATO
“HOMEM ACHA QUE MULHER NÃO É CAPAZ” “Eu acredito que toda mulher passa por alguma situação constrangedora pelo fato de ser mulher, pelo fato de algum homem considerar que a mulher não é capaz assumir determinada posição ou então se acha no direito de assediá-las simplesmente porque são mulheres. Em todos os meios profissionais existem mais casos do que temos conhecimento. Conversando com outras mulheres, percebe-se que é impressionante como a pauta é recorrente”, depõe Samantha ao OitoMeia.
MEDO DA EXPOSIÇÃO, MEDO DO AGRESSOR É fato que se trata de um fenômeno de todas as profissões, mas no Jornalismo parece ser mais preocupante. Os motivos são vários. Medo de exposição e ficar mal vista por uma sociedade que insiste em culpar a vítima. Medo do agressor, que pode transformar o psicológico dessas mulheres num caos.
Medo de perder o emprego, já que, infelizmente, a comunicação de massa brasileira abaixa a cabeça para quem paga mais e esquece que essa profissional pode ser a principal responsável em manter os veículos. Esse temor é constante e obriga o silêncio de quem nunca teve vocação para se calar diante das opressões.

No Piauí, a maioria dos casos não é notificada, sendo que o medo da exposição e de ser culpada pela sociedade é um dos principais motivos (Foto: Reprodução Mulheres Seguras)
“HÁ UM TRATAMENTO DIFERENCIADO” “O que eu percebo aqui em Brasília, em relação aos deputados, é um tratamento diferenciado entre homens e mulheres assessores. Quando um homem é chamado atenção, a advertência não é equivalente à forma como a mulher também é. Os parlamentares tendem a ser mais grosseiros e desrespeitosos com as assessoras do que com os assessores. Muitos dizem que não há bases em estudos, mas acredito que se a mulher está falando é porque algo aconteceu e o homem não pode se apropriar desse discurso, se ele não passa por isso. O lugar de fala é da mulher”, ressalta a jornalista Samantha Cavalca, que hoje mora na capital do País.
Quando um homem é chamado atenção, a advertência não é equivalente à forma como a mulher também é. Os parlamentares tendem a ser mais grosseiros e desrespeitosos com as assessoras do que com os assessores.
O CASO MC BIEL VS JORNALISTA DO IG O caso da jornalista Giulia Pereira, que era profissional do portal iG, e o cantor Mc Biel é um exemplo que entrou para a história da mídia brasileira como um dos casos mais comuns de assédio a uma profissional de comunicação. Ganhou uma repercussão nacional e até internacional, já que entidades do mundo inteiro procuraram Giulia para ouvir seu depoimento. Durante uma entrevista, o funkeiro coloca-se com as seguintes expressões à repórter: “se pego, te quebro no meio”, “E eu sou heterossexual. Eu gosto é de boceta”, “cuzona”, finalizando as indelicadezas, de forma sarcástica, oferecendo um beijo.

Mc Biel foi acusado de assédio pela jornalista Giulia (Foto: Divulgação)
OUTRO CASO, DESTA VEZ NO PIAUÍ: PROMOTOR E JORNALISTA Recentemente, no Piauí, um caso envolvendo uma jornalista também ganhou as manchetes de alguns portais do estado. O fato foi protagonizado pelo promotor de Justiça do Ministério Público Estadual (MPE-PI), Fernando Santos, e pela assessora imprensa do órgão, Ranielle Leal, filha da professora e jornalista Ana Regina Rego. Solucionado, o

Fato emblemático no Piauí é protagonizado pelo promotor de Justiça do Ministério Público Estadual (MPE-PI), Fernando Santos, e pela assessora imprensa do órgão, Ranielle Leal, filha da professora e jornalista Ana Regina Rego (Foto: Montagem OitoMeia)
“ELES ACHAM QUE PODEM FICAR COM VOCÊ” “Alguns entrevistados confundem o fato de você fazer a entrevista como se estivesse dando espaço para algo a mais que o profissional. Tem muitos que acham que, o fato de você ser solteira, eles têm o direito de ficar com você. Quando o entrevistado tem certo poder ou influência, ele acha que a jornalista vai se iludir na pretensão de ter algum interesse com a fonte. Já ouvi relatos de várias jornalistas que já sofreram esse tipo de assédio”, acrescenta Marta Alencar, ex-repórter da Revista Cidade Verde.
Alguns entrevistados confundem o fato de você fazer a entrevista como se estivesse dando espaço para algo a mais que o profissional. (…) Pautas de política e economia são segmentos que têm mais homens e, por conta disso, ocorre mais assédio
“Pautas de política e economia são segmentos que têm mais homens e, por conta disso, ocorre mais assédio. Não que os políticos dão em cima da repórter, mas o ambiente é mais propício à maioria masculina. Não necessariamente é o entrevistado o constrangedor, mas o local onde é a pauta pode acontecer. As pessoas confundem se você for com determinados tipos de roupa, como vestidos, saias mais curtas, usar um salto alto. Não sei se são somente estereótipos, mas as pessoas confundem”, diz Marta.
NENHUM HOMEM TEM DIREITO DE FERIR A DIGNIDADE ALHEIA Cada vítima pode agir da forma que julgar necessário para o momento. Tem aquelas que são enfáticas em deixar claro que não vão se submeter a situações constrangedoras, mas existem outras que não têm condições emocionais para lidar de forma tão direta contra os assédios. Independente da resposta de cada jornalista rente aos comportamentos masculinos inadequados à figura feminina, nenhum homem tem o direito de ferir a dignidade alheia, ainda mais no exercício do ofício.

Jornalistas mulheres em pautas em ambientes considerados de predominância masculina, como as de assuntos políticos e de economia, tendem a sofrer mais com assédios (Foto: Reprodução Mercado em Foco)
MEDO DE DENUNCIAR Os relatos de assédios são muitos, mas o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Piauí (Sindjor-PI) alega que não são notificados. Em alusão ao Dia Internacional da Mulher, neste 08 de março, a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) criou uma comissão de mulheres da imprensa, com representantes de cada estado do país. “A intenção é acompanhar todos esses casos de violência contra as jornalistas que ocorrem em todo o Brasil, no âmbito do seu trabalho e em relação ao assédio moral e sexual”, explana Luiz Carlos Oliveira, vice-presidente do Sindjor-PI e diretor de Saúde e Segurança da Fenaj.

No Dia Internacional da Mulher, as jornalistas merecem o reconhecimento de que são mais do que a sociedade quer impor sobre os assédios sofridos (Foto: Klimt)
O OitoMeia foi informado pelo Sindjor sobre a existência de um processo de assédio no Ministério Público do Trabalho (MPT). O caso não pode ser revelado, até mesmo por conta da integridade dos envolvidos, em especial da vítima. “O caso é de assédio. Tudo se trada de assédio sexual mesmo. É semelhante ao caso daquela . O problema, em muitos casos, é que a vítima tem medo de formalizar a denúncia”, pondera.
Solidarizar-se com as jornalistas talvez seja uma forma de representar grande parte das mulheres neste dia tão representativo. Dar voz a quem dá voz aos outros e às outras é reconhecer a importância da classe feminina para a construção de um Jornalismo sério e preocupado com as mudanças sociais e diferenças culturais. Acima de qualquer profissão, hoje é o Dia Internacional da Mulher e todas merecem o reconhecimento de que são mais do que a sociedade quer impor.
RETIFICAÇÃO
A jornalista Marta Alencar informou ao OitoMeia que desde setembro de 2016 não tem mais vínculo com o grupo Cidade Verde.