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Terça-Feira - 22 de Setembro de 2026
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Geral

Veja o artigo "Sete imperfeitos"

Por Fonseca Neto

Por: Roberto Carvalho - 20/01/2011

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É estarrecedora a prisão dessa quase dezena de prefeitos acusados de roubo de dinheiro público que veio destinado à saúde e à educação dos munícipes.Da mesma maneira espantosas as cassações de prefeitos, governadores e outros políticos por corrupção; estarrecedora e espantosas não a prisão dos prefeitos e as cassações, em si, mas as evidências de condutas criminosas que revelam. E ainda hoje (19.01) vi também notícia sobre um juiz preso falando que outros vendem sentenças. E não faz dia idênticas notícias de promotor ... auditor ... notários ... delegado ... reitor: lembram o caso da UnB e da Unifesp?Um cidadão qualquer medianamente informado sobre como funciona um município sabe do que se trata nessa operação da Polícia Federal: o Estado brasileiro apodreceu e de suas entranhas estão exalando materiais fétidos.A APPM faz nota para minimizar esse escândalo envolvendo alguns de seus membros, lembrando que é apenas a minoria deles os acusados. Tomara que tenha razão.No entanto, vivo, olho, escuto, do que sinto convir perguntar: por que a maioria da população já cultiva a percepção de que “todo prefeito é ladrão”? Ou até, “todo político é ladrão”? Mais e pior: o que leva essa maioria, sobretudo nas cidades pequenas, achar que é “natural” prefeito usar o dinheiro público em proveito próprio e de sua família?O FPM, o Fundeb e quetais, com seus milhões caindo na conta do prefeito, na moleza, três vezes ao mês, sem que ninguém no município saiba de onde ele saiu, são uma deformidade da partição tributária que empurrou quase todo mundo a beber alegremente nessa fonte dadivosa.Menino na minha cidade pequena, o prefeito era nosso exemplo de autoridade, seriedade, de conduta e moral exemplares. Ainda assim, lembro, lá dos anos 60 do XX, adversários sussurrando sobre “desfalque da cota federal”; mas jamais algo tal se tem agora, crianças e jovens crescendo com esses lastimáveis referenciais debaixo de seu nariz.A propósito, sei de criança e jovem estudante que têm vergonha dos colegas de escola descobrirem que são filhos de prefeitos do interior do Piauí, do Maranhão, por causa da má fama, generalização que não parece à-toa.Tem algo muito errado em tudo isso: tantos prefeitos cassados por corrupção eleitoral, e tantos deles respondendo a processos por desvios e variada corrupção. Tão banalizada ficou a coisa, que todo mundo sabe, não faz tempo, o chamado “crime organizado” criou um departamento de cobrança de agiotas com negócios com prefeitos, assim forçando uma sociedade vantajosa com essas quadrilhas concorrentes. Tão banalizada que são de arrepiar cabelo o que se fala sobre os bastidores das cassações de prefeito. De onde sai o dinheiro para as pesadas patrocinações tribunalescas? Do salário do prefeito? É?Tenho dito e repito: a naturalização do exercício do voto nestes 25 anos, terrível ironia, parece vai celeremente criando cepas de mandatários desmoralizados. E isso parece vem com uma desgraça conexa: jovens burocratas concursados das chamadas funções de Estado se adaptando rapidamente ao “ah! É assim mesmo; vou aproveitar enquanto o Brás é tesoureiro”.O cenário é, de todo modo, esperançoso, porque algo parece está sendo feito para coibir. Mas é de grande desvanecimento quando é sabido que avança a lógica do modelo de representação política, antipopular na essência, cujo reverso é a desmobilização social. Dito de outra forma: as militâncias dos eitos e das ruas que alargam as brechas novidadeiras que aperfeiçoam o viver humano, agora pisam os tapetes que cevam as permanências conchavadas. Parece inexorável. Não é, porém.E não existem as câmaras municipais para fiscalizar? Os tce’s? Tolice: são simulacros e meros elementos acomodatícios das sobreditas mazelas, substituindo um poder popular de há muito usurpado.Poder popular. Sim, parece fantasia, mas não é fantasia, da mesma forma que não é fantasia o modelo de sociedade e, assim, de Estado/município como eficaz mecanismo de assegurar à meia dúzia de grandes donos a apropriação de quase tudo da riqueza natural e socialmente criadas.Mas há quem diga que prefeito e vereador são bicho pequeno nesses grandes esquemas. Nada, são pilares sobre os quais se faz o edifício dos poderosos maiores.Sete imperfeitos? Sendo verdade o que a polícia e o próprio povo lhes atribui, são, rigorosamente, perfeitos inimigos da população.Fonseca Neto, professor da UFPI, advogado, escreve às segundas-feiras, hoje, excepcionalmente.
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