Por: Roberto Carvalho - 18/04/2011
129
Levantamento realizado pelo site Congresso em Foco revela que dois terços dos atuais senadores e 48% dos deputados federais do Brasil têm parentes da política. No Piauí, dois senadores são familiares de políticos e sete dos 10 deputados federais (11, se incluirmos Átila Lira, que afastou-se para ser secretário de Educação) possuem parentes. Assim, na Câmara Federal, 64% dos deputados piauienses têm parentes na política.
O levantamento mostra que o senador Wellington Dias (PT) é marido da deputada estadual Rejane Dias (PT). O deputado federal Átila Lira (PSB) é irmão da ex-prefeita de São Miguel do Tapuio (PI) Jandira Lira. O deputado Ciro Nogueira Filho (PP) é filho do ex-deputado federal Ciro Nogueira e neto do ex-prefeito de Pedro II, Manoel Nogueira Lima. O deputado federal Hugo Napoleão (DEM) é neto do ex-deputado Hugo Napoleão do Rego (PDS). A deputada federal (que estreou esse ano) Iracema Portela (PP) é filha do ex-governador Lucídio Portella e da ex-deputada constituinte Miriam Portella e sobrinha do ex-ministro da Justiça Petrônio Portella. Seu marido, Ciro Nogueira Filho (PP), é senador.
O deputado federal Júlio César (DEM) é irmão do ex-prefeito de Guadalupe (PI) Georgiano Lima. O deputado federal Marcelo Castro (PMDB) é filho do ex-prefeito e ex-deputado José de Castro, pai do secretário estadual de Infraestrutura José Dias de Castro. O deputado federal Marllos Sampaio (PMDB) é filho do ex-deputado Themístocles Sampaio e irmão do deputado estadual Themístocles Filho.
O deputado federal Paes Landim (PTB) é filho do ex-deputado estadual Francisco Antônio Paes Landim Neto, irmão do ex-deputado estadual Paulo Henrique Paes Landim, da ex-deputada estadual Amparo Paes Landim, do ex-prefeito de São João do Piauí Murilo Paes Landim, do ex-deputado estadual Luiz Gonzaga Paes Landim e tio do atual prefeito de São João do Piauí, Roberth Paes Landim.
Para o cientista político Ricardo Costa de Oliveira, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), os números do novo levantamento confirmam o que ele já suspeitava: cresce nos estados a concentração de poder nas mãos de poucas famílias.
"O que estamos observando é o mesmo que aconteceu na primeira República, a República Velha. Cada vez é maior a existência de linhagens, de oligarquias, nos estados. Muitos achavam que era um fenômeno da República Velha, no início do século XX, mas é cada vez mais um fenômeno contemporâneo do início do século XXI. E está aumentando como se observa no levantamento do Congresso em Foco", afirma o professor.
Para o professor da Universidade Federal do Paraná, Ricardo Costa de Oliveira, a política é cada vez mais "um negócio de família" no Brasil. "Muitas vezes, isso passa de pai para filho. As eleições estão cada vez mais caras. Você tem de ter uma estrutura de dinheiro e uma estrutura familiar política que lhe dêem condições de elegibilidade. Isso é um fenômeno também de reprodução do poder político", avalia o cientista político.
No início da legislatura passada, 40 senadores - pouco menos da metade deles - vinha de famílias com tradição política, como mostrou o livro "O que esperar do novo Congresso - Perfil e Agenda da Legislatura 2007-2011", feito pelo Congresso em Foco em parceria com o Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap). De lá pra cá, a bancada dos parentes cresceu 40%.
A influência do parentesco na vida política dos senadores pode ser dividida em quatro grupos: há aqueles que entraram para a vida pública sob o apadrinhamento de familiares; os que alçaram vôos bem mais altos que seus parentes, e aqueles que inauguraram a tradição política da família e estão deixando herdeiros. Há, ainda, aqueles cujo parentesco parece ter tido pouca influência no sucesso político.
Um dos motivos que explica o aumento do número de parlamentares com parentesco na política são as campanhas cada vez mais caras. Na avaliação do professor Ricardo Costa de Oliveira, no atual sistema, é preciso o candidato ter cada vez mais recurso para se eleger. "E quem tem mais dinheiro e estrutura política são famílias que já estão no poder", avalia. "No atual sistema político, só se elege quem é profissional, quem tem dinheiro, quem tem muita estrutura. Quem é amador, político novo, só com suas ideias, não consegue se eleger de primeira, com raras exceções", afirma.
Autor do livro "A Teia do Nepotismo" e da tese de doutorado "O silêncio das genealogias - classe dominante e estado no Paraná" - que analisou a estrutura de poder e de parentesco no Paraná -, Oliveira analisa que a família, como uma organização, consegue formar grandes "estruturas de poder". "São grandes redes de cumplicidade e de favores, conectando o poder Executivo, Legislativo, Judiciário e todas as instituições do sistema político", afirma, enfatizando que o Paraná, em termos de influência de famílias na política, não é diferente de estados como Alagoas e Maranhão.
Para o cientista político Leonardo Barreto, da Universidade de Brasília (UnB), a perpetuação de famílias na política também é explicada pelas próprias estratégias dos clãs. O cientista analisa que, entre os familiares, há um "compartilhamento do know-how necessário para uma eleição". "Você tem familiares com mandato, você tem fonte de informação sobre o que é necessário fazer para vencer uma eleição. Na medida em que o conhecimento é compartilhado, há uma vantagem estratégica. Você já sai numa eleição com referencias, com credenciais", avalia Barreto.
Na avaliação de Barreto, esse tipo de continuidade de famílias na política não é uma característica apenas da política brasileira, mas prevalece em regiões com Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) mais baixo. "Boa parte desse fenômeno acontece em sociedades mais tradicionais do ponto de vista de eleitores, que têm como critério de voto o costume. É muito comum escutar nas cidades: 'Eu sou do grupo de fulano, de sicrano'. Hábitos políticos constituídos antes do atual sistema partidário", conclui.
Clique aqui e confira toda a reportagem especial do site Congresso em Foco sobre a bancada dos parentes