Por: Roberto - 27/02/2021
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Em 19 de março o Piauí completa um ano desde a primeira quarentena, decretada ainda no ano passado através do decreto Nº19.895. Após o Carnaval os números de infectados com a Covid-19 dispararam, levando muitos municípios ao limite do colapso. Naquela época, o Piauí manteve os índices de ocupação dos leitos abaixo de 70%, com medidas mais restritivas e a ampliação da estrutura hospitalar, com medidas à frente de muitos Estados.
Agora, um ano depois, o Piauí enfrenta o colapso da saúde pública, onde o epicentro da pandemia, a capital, Teresina, já chegou ao limite dos leitos de UTI Covid-19, com 100% de lotação. Em outras palavras, os piauienses temem o fantasma que rondou estados como Manaus e o Rio de Janeiro.
Para Gilberto Albuquerque, presidente da Fundação Municipal de Teresina, o município está no limite. “Teresina é o município que gerencia os leitos do Piauí, na prática. Abrimos mais cinco leitos no Dirceu e cinco leitos no HGV, permitindo uma segurança melhor. Mas ainda não é uma situação folgada. Estamos exaurindo nossa capacidade de aumentar leitos. Não temos mais equipamentos no mercado para melhorar o serviço. Estamos com problemas para garantir insumos. Tem dias que tivemos que comprar remédio na farmácia comum. A reserva que tínhamos para seis meses já está acabando. Se continuar assim não teremos insumos para os próximos 40 dias. A indústria farmacêutica não tem como suprir”, lamenta.
Gilberto Albuquerque, presidente da Fundação Municipal de Saúde (FMS). Crédito: divulgação.
O vice-prefeito de Teresina, Robert Rios, reforçou que além dos leitos já faltam medicamentos básicos para atenuar os sintomas da doença, como corticóides e antibióticos. A pergunta que fica é: será que também vai faltar oxigênio para os piauienses? Em meio ao colapso, outra dificuldade: a falta de médicos intensivistas e enfermeiros de UTI. Os profissionais da linha de frente alegam cansaço e exaustão, em uma verdadeira luta pela vida humana. Entre oxímetros e despressurização, passeia em todo território a variante brasileira do novo coronavírus.
Doutor Pessoa e Robert Rios, prefeito e vice-prefeito de Teresina, respectivamente. Crédito: divulgação.Jovens, idosos, homens e mulheres. Todos são vítimas em potencial. Com uma vacinação que caminha a passos lentos, com a distribuição centralizada no Ministério da Saúde e uma política a conta gotas, o Sistema Único de Saúde (SUS) pede socorro para a própria população brasileira.
Medidas mais frouxas
No primeiro trimestre do ano passado o Estado fechou comércio, escolas e até igrejas. Restaurante e bar, só delivery. Escolas, igrejas e academias fechadas, podendo realizar atividades on-line. Apenas serviços considerados essenciais mantiveram as portas abertas, com medidas restritivas quanto à lotação. Em fevereiro de 2021, à beira do colapso da saúde pública, foi ensaiado um decreto parecido pelo Governador Wellington Dias, mas que logo foi corrigido para atender interesses de pais de alunos e empresários no dia 22 de fevereiro.
Governador Wellington Dias. Crédito: divulgação.
Com o decreto Nº 19.478, escolas podem funcionar de forma presencial, mesmo sem professores e alunos vacinados. Quanto aos bares e restaurantes, estes podem funcionar de segunda a sexta. O comércio também fica aberto, mas em horário especial. Lojas avulsas podem ficar abertas até às 17h, enquanto lojas de shoppings deverão ficar abertas entre 12h e 21h.
As igrejas também mantiveram suas atividades presenciais, mas com apenas 30% da capacidade de fiéis. Já as academias entraram como serviço essencial. Parques e praias, além de espaços públicos, também poderão ser utilizados, desde que respeitando as medidas de distanciamento e higiene. Esportes coletivos, como futebol, estão proibidos.
Toque de recolher e mais fiscalização
A novidade mesmo é o toque de recolher às 23h, finalizando às 5h. As forças policiais, com o apoio da Vigilância Sanitária, vão fiscalizar os furões da quarentena que não estiverem em casa após o horário determinado. Aos finais de semana as atividades comerciais também deverão ser suspensas. “Nosso objetivo é conter a transmissibilidade do nível que está, de adoecimento, do coronavírus. Temos três eixos importantes. Fizemos uma aprovação junto ao COE com relação ao toque de recolher. A partir do horário, exceto atividades essenciais, tudo para completamente. Vamos ter o cuidado com relação ao transporte de trabalhadores”, ressalta o Governador Wellington Dias.
As restrições aos finais de semana também prometem afunilar o gargalo do grau de infecção do Estado. “A partir do final de semana nós teremos uma paralisação geral. Apenas atividades estritamente essenciais, a exemplo de postos de gasolina e borracharia de rodovias, poderão funcionar”, acrescentou o chefe do Executivo Estadual.
Crédito: divulgação.
A fiscalização também promete ser mais rígida. Somente na primeira noite do toque de recolher, na última quarta-feira (24), pelo menos 15 locais da cidade não respeitaram o toque de recolher e foram notificadas. Uma pizzaria, por exemplo, terá que pagar uma multa de R$ 2 mil por ultrapassar o limite de horário. A ideia também é de conter aglomerações e pessoas sem máscara, além daqueles que estão em pé nos bares. As medidas do decreto impõem que somente pessoas sentadas poderão permanecer nestes estabelecimentos.
Dias destaca que todo o operacional do Estado estará envolvido na fiscalização. “Vamos trabalhar de forma conjunta para unir Vigilância Sanitária, Polícia Militar, Guarda Municipal, Polícia Civil, Militar, Rodoviária, além do Ministério Público, para garantir o cumprimento das medidas acertadas. Nosso regramento vale até o dia 4 de março, com reunião marcada para o dia 2 para avaliar as medidas. Com prorrogação ou novas medidas. Peço apoio da população”, reforça.
O que levou o Piauí ao extremo de lotações de UTI?
Após o relaxamento de medidas restritivas, os números de infectados passaram a crescer lentamente, desde as eleições municipais de 2020. O afrouxamento de medidas de isolamento social, com a reabertura do comércio em tempo integral, também aparecem como fator determinante. O final do ano e as festas de reveillon também, que mantiveram os números em ascensão.
O Carnaval, que foi proibido, também aconteceu de forma clandestina. Aglomerações sem fiscalização, como aquela em uma boate da zona Leste de Teresina que terminou em tiroteio e um assassinato no dia 19 de fevereiro, também alavancaram os números. Somando isso às reduções do número de leitos, o colapso da rede de alta complexidade é uma consequência cruel para o povo piauiense.
Redução do número de leitos em até 66%
O governador Wellington Dias justifica a diminuição do número de leitos com o retorno de cirurgias eletivas, que estavam paralisadas por conta da primeira onda do novo coronavírus e que foram retomadas gradualmente. “Nós chegamos em um patamar muito elevado. Vamos aumentar o número de leitos. Os leitos que tínhamos lá atrás vieram novamente para demais doenças em cirurgias paralisadas lá atrás. Agora vamos parar as cirurgias eletivas para garantir condições de atendimento de Covid-19, dentro desta realidade”, considera.
Hospital Universitário está na linha de frente e com leitos em lotação máxima. Crédito: Divulgação.
A redução do número de leitos clínicos e de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) diminuíram drasticamente em todo o território piauiense, sobretudo na capital, Teresina. Na tentativa de fugir do colapso, o secretário de Estado da Saúde, Florentino Neto, destaca a reabertura do Hospital Nossa Senhora de Fátima, em Parnaíba, para dar suporte ao Hospital Dirceu Arcoverde (HEDA). “Nosso único inimigo em comum é o vírus”, disse o secretário de forma sucinta.
Florentino Neto, secretário de Estado da Saúde. Crédito: Divulgação.
Segundo levantamento feito pelo Jornal Meio Norte, em um comparativo entre junho e julho de 2020 e fevereiro de 2021, a redução chega a 66% em leitos clínicos da capital. A redução em todo o Estado chega a 39,4%. Os leitos de UTI Covid também sofreram reduções ao longo dos meses de afrouxamento da quarentena. Houve redução de 36% dos leitos de todo o Estado, além de 41% dos leitos em Teresina. Entre os meses de junho e julho na capital chegou a somar 1496 leitos destinados a pacientes com Covid-19. Eram 1038 leitos clínicos e 458 leitos de UTI.
HGV amplia leitos
O diretor-geral do Hospital Getúlio Vargas (HGV), Osvaldo Mendes, informou que foram habilitados mais cinco leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) para pacientes com Covid-19 no hospital e a perspectiva é que mais cinco sejam abertos. “A população tem que entender essa situação e colaborar neste momento difícil, obedecendo as medidas restritivas, pois não queremos que aconteça no Piauí o que está acontecendo em outros estados”, alerta o gestor.
Hospital Getúlio Vargas (HGV). Crédito: Divulgação.As medidas incluem a suspensão de cirurgias eletivas e atendimento somente das situações emergenciais, pacientes que vêm por meio da Central de Regulação do Estado, serão realizadas nestas duas semanas de medidas restritivas. Segundo ele, as ações foram determinadas após reunião com o Comitê de Operações Emergenciais (COE) do Governo do Estado do Piauí.
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