Por: Roberto - 24/08/2026
106
Para uma família, encontrar um familiar vivo ou morto significa também ter a possibilidade de se despedir, velar e sepultar ou de tê-lo de volta em casa. Mas, para quem convive com o desaparecimento de um filho, nem mesmo essa despedida é possível. Ter um corpo para velar e enterrar e saber o porquê essa pessoa sumiu deveria ser um direito de todos, mas há mães que passam meses ou até anos sem saber onde estão seus filhos e sem ter sequer a certeza do que aconteceu com eles.
O Cidadeverde.com conversou com duas mães que, assim como outras famílias do Piauí, seguem em busca de informações sobre o paradeiro dos filhos. Uma procura pelo filho desaparecido há pouco mais de um mês e acredita que ele tenha sido morto. A outra busca pela filha há quase dois anos. Em comum, elas carregam a falta de respostas e a esperança de que alguma informação possa finalmente colocar fim à espera.
Nesta segunda-feira (24) se iniciou a Mobilização Nacional de Identificação de Pessoas Desaparecidas. No estado, a iniciativa é coordenada pelo Instituto de DNA Forense do Departamento de Polícia Científica (Depoc) e busca fortalecer o Banco Nacional de Perfis Genéticos e ampliar as possibilidades de localização de indivíduos desaparecidos.
David Jefferson de Moraes Gomes, de 19 anos, desapareceu em julho deste ano, em Demerval Lobão, a cerca de 35 quilômetros de Teresina. Segundo a mãe, ele saiu de casa na companhia de um homem em uma motocicleta e não foi mais visto. A mãe chegou a receber uma foto do filho morto, mas o corpo nunca foi entregue.
Ela contou que o filho passou de moto próximo a um velório que acontecia na cidade e, depois, teria saído com outro homem. Desde então, não houve mais notícias.
“Aconteceu um velório próximo à minha casa. Ele passou de moto. Depois, soube que ele saiu com um rapaz, que foi a última pessoa a vê-lo. Ele sumiu”, afirmou.
Foto: Arquivo Pessoal

Ainda segundo a mãe, David teria se envolvido no roubo de uma motocicleta e seguido para Teresina. Ela acredita que o homem que estava com o filho pode ter vendido o veículo e matado o jovem.
A família registrou um boletim de ocorrência na cidade e também procurou o Departamento de Homicídio e Proteção à Pessoa (DHPP), em Teresina.
Convencida de que o filho foi morto, ela diz que não busca apenas uma resposta sobre o que aconteceu, mas a possibilidade de encontrar o corpo e realizar uma despedida.
É por este motivo que ela pretende participar da mobilização de coleta de DNA. A expectativa é que, caso o jovem esteja entre pessoas não identificadas, o material genético da família ajude na identificação.
“Eu queria pelo menos o corpo do meu filho para poder enterrar. É muito triste para uma mãe perder um filho e não poder nem velar o corpo. Quero o corpo do meu filho para fazer o velório, enterrar meu filho e colocar ele no lugar que ele merece estar”, desabafou.
A mãe também afirmou que, independentemente das circunstâncias que envolveram o desaparecimento, considera que o filho merece ser identificado e receber uma despedida.
“O erro que ele cometeu já foi pago com a vida. Ele não está devendo mais nada para ninguém. Ele era um ser humano. Eu quero o corpo do meu filho para fazer o velório e enterrar meu filho”, declarou.
A dona de casa Jaciane Francisca Moraes Paiva, de 31 anos, desapareceu em 23 de setembro de 2024. Moradora da Vila Boa Esperança, na zona Norte de Teresina, ela saiu de casa por volta das 11h e disse à filha, que tinha 10 anos na época, que voltaria logo. Não voltou.
Segundo um familiar, a menina saiu para a escola e, ao retornar, encontrou a casa fechada. A chave estava escondida no local que apenas ela e a mãe conheciam. A criança procurou por Jaciane na vizinhança, mas ninguém soube informar onde ela estava.
Jaciane vivia com o companheiro, Rafael Araújo Pinheiro, na casa onde ambos moravam. Rafael foi assassinado dentro da residência em 11 de maio de 2024. Na ocasião, Jaciane e a filha estavam no imóvel.
Após a morte do companheiro, Jaciane passou um período na casa de familiares. Quando voltou, encontrou as fechaduras do imóvel trocadas e registrou um boletim de ocorrência contra a ex-sogra. A família, porém, afirma que ela não vinha sofrendo ameaças.
Foto: Arquivo Pessoal

Desde o desaparecimento, a mãe de Jaciane, Maria de Jesus, de 72 anos, convive com a ausência da filha. Ela já participou da mobilização de coleta de DNA realizada em 2025 e pretende continuar colaborando com as investigações.
“Hoje está com 1 ano e 11 meses que ela está desaparecida, sem notícia nenhuma. Não sei notícia da minha filha, onde se encontra, se está viva ou não viva. Eu não tenho uma notícia dela”, contou.
A neta de Maria mora com ela e ainda sente a falta da mãe. “A filha dela ainda chora muito de saudade da mãe. E eu só lamento muito. A saudade da minha filha é muito grande, pois ela é filha única. E a minha neta também”, relatou.
Para Maria, o mais difícil é conviver diariamente com a dúvida.
“A falta é muito grande, a dor é terrível. É muito forte para uma mãe ter uma filha desaparecida esses dias todos sem ter notícia. É difícil demais. Uma coisa é estar doente, a família acompanha, sabe onde está. O difícil é não saber onde está, não saber o que falar, não saber para onde ir para encontrar sua filha”, disse.
Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, o Piauí registrou 744 pessoas desaparecidas em 2025, contra 617 em 2024. O aumento foi de 20,5%. Do total registrado no estado em 2025, 346 pessoas foram localizadas.
É nesse cenário que começa, nesta segunda-feira (24), a Mobilização Nacional de Coleta de DNA de Familiares de Pessoas Desaparecidas. A ação segue até sexta-feira (28) e terá dez pontos de coleta no Piauí, distribuídos em nove cidades.
A mobilização é promovida pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública e marca o início da Campanha Nacional de Coleta de DNA de Familiares de Pessoas Desaparecidas de 2026. Em todo o país, serão 334 pontos.
A coleta é realizada durante todo o ano nas instituições de perícia oficial, mas a mobilização concentra a estrutura para atender mais famílias em um período curto.
O DNA dos familiares é inserido nos bancos estaduais, distrital e nacional de perfis genéticos e comparado com material de pessoas não identificadas, vivas ou mortas. As buscas são automáticas e continuam mesmo quando não há uma coincidência imediata.
Também podem ser entregues objetos de uso pessoal da pessoa desaparecida, como escova de dentes e aparelho de barbear, além de dentes de leite e cordão umbilical, quando preservados pela família.
A coleta pode ser feita com um cotonete na parte interna da bochecha ou com uma gota de sangue retirada do dedo. Não é necessário estar em jejum.
O procedimento é indicado principalmente para familiares que ainda não fizeram a coleta. A preferência é por pai e mãe biológicos; depois, filhos biológicos e o outro genitor; e, na sequência, irmãos biológicos. Crianças também podem doar, desde que acompanhadas pelo responsável legal.
Em Teresina, haverá atendimento no Instituto de DNA Forense, na Rua Governador Raimundo Artur de Vasconcelos, 995, bairro Porenquanto, e no Instituto de Medicina Legal (IML), na Rua Francisca de Melo Lobo, s/n, bairro Saci.
Também haverá pontos em Bom Jesus, Corrente, Floriano, Parnaíba, Picos, Piripiri, São Raimundo Nonato e Uruçuí. Nas demais cidades, o atendimento será realizado em salas dos Núcleos Regionais de Polícia Científica, instaladas nas delegacias da Polícia Civil.
Para fazer a coleta, o familiar deve levar documento de identidade e, se possível, informações ou cópia do boletim de ocorrência do desaparecimento. Objetos pessoais da pessoa desaparecida que possam conter DNA também podem ser apresentados.
A lista nacional com os 334 pontos de coleta está disponível no Ministério da Justiça e Segurança Pública. O desaparecimento de David Jefferson e Jaciane Francisca é acompanhado pela Polícia Civil do Piauí, mas, segundo as mães, não há atualizações sobre os desaparecimentos.
CidadeVerde.com